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Faça seu amor, bonito 21 abril, 2011

Posted by Mônica Góes in Estado de Espírito, Literatura, Textos.
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Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar: aprenda a fazer bonito o seu amor. Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito. Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito. Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender.

Tenho visto muito amor por aí. Amores mesmo, bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva, mas esbarram na dificuldade de se tornar bonito. Apenas isso: bonitos, belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção. Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.

Aí esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais de repente se percebeu ameaçados apenas e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram; exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender; necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem; enchem-se de razões. Sim, de razões. Ter razão é o maior perigo no amor.
Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reinvindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão. Nem queira. Ter razão é um perigo: em geral enfeia o amor, pois é invocado com justiça mas na hora errada. Amar bonito é saber a hora de ter razão.

Ponha a mão na consciência. Você tem certeza que está fazendo o seu amor bonito?
De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade, da alegria do encontro, da dor do desencontro, a maior beleza possível? Talvez não. Cheio ou cheia de razões, você espera do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer.
Quem espera mais do que isso sofre, e sofrendo deixa de amar bonito. Sofrendo, deixa de ser alegre, igual criança. E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.

Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia. Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama. Saia cantando e olhe alegre.
Recomendam-se: encabulamentos; ser pego em flagrante gostando; não se cansar de olhar, e olhar; não atrapalhar a convivência com teorizações; adiar sempre, se possível com beijos, “aquela conversa importante que precisamos ter”, arquivar se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida. Para quem ama toda atenção é sempre pouca. Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda atenção possível. Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter.

Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida como criança de nariz encostado na vitrine, cheia de brinquedos dos nossos sonhos): não teorize sobre o amor, ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.

Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade;não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito); abrir o coração; contar a verdade do tamanho do amor que sente.
Jogue pro alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser. Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs. Falando besteiras, mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como no tempo do Natal infantil. Revivendo os carinhos que instruiu em criança. Sem medo de dizer, eu quero, eu gosto, eu estou com vontade.

Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou bonitar fazendo seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito (a ordem das frases não altera o produto), sempre que ele seja a mais verdadeira expressão de tudo o que você é e nunca, deixaram, conseguiu, soube, pôde, foi possível, ser.

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe mais com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.

Artur da Távola

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Formas de amar 21 abril, 2011

Posted by Mônica Góes in Estado de Espírito, Meus Escritos.
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Eu amei da forma que acho que todos os seres humanos deveriam se amar. Hoje acredito que, para amar, não é preciso os arroubos da paixão. O amor se constrói no respeito, na confiança, na cumplicidade, no bem querer.

Eu amei um amor maduro, um amor sem neuroses, sem ciúmes, sem desespero, sem loucuras. Um amor sereno, um amor tranquilo. Um amor que não me faria sofrer. E a bem da verdade, não está me fazendo sofrer agora. Está me fazendo falta. Porque foi o amor que sempre almejei sentir.

Não aquele amor que quando se vai, estraçalha suas vísceras, dói, arde por dentro de tanto pesar e angústia, desespera. É um amor que se resigna pelos dois. Que pondera, que é racional, que equilibra o melhor para o par.

E creia. Não é fácil construir um amor assim. Porque esse amor não se constrói só. O outro tem que lhe dar motivos para amar assim e acreditar neste amor. Ele me deu talvez sem saber. Eu acreditei, eu construi. Mas, lamentavelmente, a maioria das pessoas querem o amor apaixonado, cego, insano, imbecilizado e juvenil. Cheio de energia, tão cheio em si, que explode em atos muitas vezes com um furor momentâneo e a durabilidade das chamas de um palito de fósforo. Que não se sustenta. Que não sobrevive às provas difíceis da vida.

E de antemão aviso: não existem verdades universais. Esta é apenas a minha verdade.

Dirão que esta mulher é seca, sofrida ou sisuda. Mas nesta forma de amar tem alegria sim. Tem o momento bobagem. Tem o carinho, tem a ternura. Mas não tem só isso cem por cento do tempo. E no meu amar, isso não é cobrado, exigido. Isso acontece de repente e por ser natural é tão engraçado. É tão divertido. 

E, num momento piegas, mas indubitavelmente verdadeiro, quando duas pessoas se amam de formas diferentes, devem se cobrar menos e vivenciar mais. E não somente no amor, mas na vida em todas as suas nuances, jamais queira que o outro seja como você gostaria. Vivencia a forma do outro ser. Tolere. 

A questão se prende não nos amores diferentes, mas onde não se aceita o amor do outro como é.  Talvez assim se vá longe. Muito longe. E não se veja parado no meio do caminho à beira da estrada.

Amor maduro (Artur da Távola) 14 fevereiro, 2011

Posted by Mônica Góes in Amor, Estado de Espírito, Textos.
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Andei pensando nesta minha forma de amar. Forma diferente de amar. Acho ela tão simples. Tão fácil de se entender e se ter. Aí encontro numa conversa a respeito e me deparo de novo com Artur da Távola. O cara sabe o que diz.

O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas quase silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido, colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.O amor maduro somente aceita viver os problemas da felicidade.

Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão.
Basta-se com o todo do pouco.
Não precisa nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e a sua incompletude, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
O amor maduro não disputa, não cobra, pouco pergunta, menos quer saber. Teme, sim. Porém, não faz do temor, argumento.
Basta-se com a própria existência.
Alimenta-se do instante presente valorizado e importante porque redentor de todos os equívocos do passado.
O amor maduro é a regeneração de cada erro.
Ele é filho da capacidade de crer e continuar, é o sentimento que se manteve mais forte depois de todas as ameaças, guerras ou inundações existenciais com epidemias de ciúme.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu mesmo tendo ficado para depois.
Vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não persegue, recebe.
Não exige, dá. Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.
Só teme o que cansa, machuca ou desgasta.

(Artur da Távola)